a quick fix

Aprender o ofício – Charles Bukowski

Ele era o meu guru

Era um homem grande, barbudo, confiante.

Sentava-se numa cadeira.

Eu sentava-me noutra.

Tínhamos passado juntos

muitas noites em pé.

Passou uma hora de silêncio pesado.

Ele inclinou-se para a frente

E sussurrou

“Chinaski, não te preocupes

Com os vermes depois de morreres,

Os vermes não infestam os cadáveres,

É tudo mentira”

“é bom saber isso” – disse eu

E entrámos noutra hora de silêncio pesado.

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Ainda não fiz 40 e já tenho a barba branca – Lew Welch

Ainda não fiz 40 e já tenho a barba branca.

Ainda não estou bem acordado, tenho os olhos inchados e vermelhos,

como uma criança que tenha chorado muito.

O que há de mais desagradável

Do que o vinho da noite passada?

Vou fazer a barba.

Vou mergulhar a cabeça na nascente fria

e olhar para os seixos.

Talvez consiga comer uma lata de pêssego.

Depois bebo o resto do vinho,

escrevo poemas até me embebedar outra vez.

e quando a brisa da tarde se levantar

durmo até que veja a Lua

e as árvores negras

e o veado a mordiscar

e ouça

os guaxinins a lutar.

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As minhas mãos são uma cidade – Gregory Corso

As minhas mãos são uma cidade, uma lira

E as minhas mãos incendiadas

E a minha mãe toca Corelli

enquanto as minhas mãos ardem.

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Todos embalados por máquinas de amorosa graça – Richard Brautigan

Gosto de imaginar um pasto cibernético

(quanto mais cedo melhor!)

Onde os mamíferos e os computadores

Vivam juntos em mútua harmonia  programada

Como água pura a tocar o céu limpo.

Gosto de imaginar

(agora já, por favor!)

Uma floresta cibernética

De pinheiros e aparelhos electrónicos

Onde os veados passeiem em paz

Ao lado de computadores

Como se fossem flores giratórias

Florindo.

Gosto de imaginar

(só pode ser assim!)

Uma ecologia cibernética

Em que sejamos livres dos nossos trabalhos

E regressemos em conjunto à natureza,

De volta aos mamíferos nossos irmãos e irmãs

E em que sejamos todos embalados por máquinas de amorosa graça.

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A MUDAR FRALDAS – Gary Snyder

Ele parece tão inteligente!
deitado de costas
os dois pés presos numa mão minha
o seu olhar de lado
num poster gigante do Jerónimo
com uma espingarda de repetição Sharp ao joelho.

Eu abro, limpo, ele nem dá por isso
e nem eu.
Pernas e joelhos de bébé
dedinhos como ervilhas pequenas
rugas pequeninas, saborosas,
olhos brilhantes, orelhas brilhantes,
peito a inchar sugando o ar,

Não há problema, amigo
tu e eu           e o Jerónimo
somos homens.

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DEPOIS DO TRABALHO – Gary Snyder

A cabana e algumas árvores
flutuam no nevoeiro que sopra

Eu tiro-te a blusa,
aqueço as minhas mãos frias
nos teus seios.
Tu ris-te e estremeces
a descascar alho ao
fogão de ferro quente.
trago o machado, o ancinho,
a lenha

iremos encostar-nos à parede
um contra o outro
o guisado a fervilhar ao lume
enquanto escurece
a beber vinho.

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Conheço um tipo – Robert Creeley

Conheço um tipo

dizia eu ao meu

amigo, porque estou

sempre a falar, – John, disse

eu, que não era o seu

nome, a escuridão rodeia-

-nos, o que

podemos fazer contra

ela, ou melhor, e se, e

porque não, comprássemos um carro grande como caraças,

guia, disse ele, por

amor de deus, tem

atenção ao caminho

– Robert Creeley

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As Cinzas do Neal – Allen Ginsberg

Delicados olhos que pestanejavam Rockies azuis são cinza

mamilo, costelas que toquei com o polegar são cinza

boca que a minha língua tocou uma ou duas vezes é cinza

bochechas ossudas suaves na minha barriga são escória, cinza

lóbulos e pestanas, palma máscula, coxa de liceu,

braço bicep de baseball, oho do cú anelado em pele sedosa

tudo cinza, tudo cinza outra vez.

Agosto 1968

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Gary Snyder – UMA ÚNICA VEZ

UMA ÚNICA VEZ

quase no equador

quase no equinócio

exactamente à meia-noite

de um navio

a lua cheia

no centro do céu

Sappa Creek, perto de Singapura

Março 1958

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